Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro


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Arquitetura Rionegrina

Ao percorrermos a bacia do rio Negro a noção de lugar torna-se densa a partir da percepção dos espaços enquanto resultado de uma produção de longa duração. Na diversidade de suas paisagens se emolduram horizontes recortados pelo relevo, composições florestais e edificações que compõem uma ambiência eloquente, desenhando uma identidade paisagística regional.

As aldeias hoje em dia são caracterizadas pela diversidade de materiais e morfologias que guardam nas suas maneiras de ocupação e usos, padrões assimilados através da memória coletiva que remetem às malocas. Assim a arquitetura indígena produzida no Rio Negro tem muitas feições que incorporam materiais industrializados mesmo em detrimento da qualidade dos espaços e do conforto ambiental.

Nessas paisagens socialmente construídas revela- se uma gama de saberes e fazeres que materializam uma Arquitetura Rionegrina. A amplitude do espectro dos traços identitários aí expressos permeia desde a metrópole, passando pelas cidades, vilas e aldeias. Alguns ícones dessas representações espaço-temporais transcendem a materialidade de seus suportes. As malocas dos povos de língua Tukano e Aruak se destacam como símbolos dessa identidade arquitetônica no Rio Negro.

Através desses objetos técnicos arquitetônicos, mais perfeitos que a própria natureza, as malocas, potencializam articulações simbólicas vitais à reprodução cultural. Catalisam no seu espaço-corpo, a subjetividade, operando sínteses de percepção. O corpo maloca toma posse do tempo, fazendo coexistir um passado e um futuro num instante presente.

As malocas representam, na vida desses povos, uma possibilidade de viajar no tempo, de se refazerem, reafirmarem-se e se fortalecerem em suas tradições. Reconhecem essas casas comunais como um corpo, que possibilita sentir o espaço enquanto lugar. Elas materializam a espacialidade onde se estabelecem as relações entre homem e mundo, lugar das relações sociais, relações essas constituídas a partir de referências históricas e culturais. Espaço que se referencia analogamente em três níveis: a terra, o ar e o cosmos. No subsolo, na terra estão as fundações da maloca, suas bases ancestrais, onde estão enterrados seus mortos, lugar onde está disposta, em função das hierarquias da organização social, a planta arquitetônica que se distribui de acordo com os padrões estabelecidos pela tradição, trata-se de um espaço denso e espacializado.

Sobre o solo, no ar estão armadas as superestruturas, os esteios, as referências verticais que sustentam a abóbada celeste. Espaço rarefeito, espacializante, onde se desenvolve o diálogo orientado segundo representações de gênero, de entidades mitológicas que se distribuem de acordo com a genealogia do grupo social, refletindo assim as relações de parentesco, os espaços da sociabilidade, dos rituais e cerimônias.

Sobre essa infra-estrutura, ocupando o lugar do cosmos está a cobertura da maloca, um espaço etéreo construído a partir de uma síntese da visão de mundo, uma experiência vivida enquanto existência cósmica. Nessa cobertura, tecem com os elementos da natureza, através da sua estrutura reticulada, o céu que os protegem. Estabelecem aí relações do homem com o lugar, filtram a luz e demarcam limites das sazonalidades, ligam-se ao cosmos. As malocas são as marcas de localidades persistentes, abrigaram os seres míticos, foram centro das ações durante a história do contato e continuam sendo construídas como espaços de afirmação da identidade cultural.

Almir de Oliveira , arquiteto do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional

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  1. As Malocas | Foirn - [...] mais aqui sobre a arquitetura do Rio Negro com o artigo do arquiteto Almir de Oliveira, estudioso das malocas…