Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro


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Diversidade Linguística no Alto Rio Negro

Por Kristine Stenzel, Departamento de Linguística, UFRJ

A região do alto e médio rio Negro, localizada no noroeste do estado do Amazonas, é uma das regiões com maior diversidade étnica e linguística da Amazônia. Só no município de São Gabriel da Cachoeira, com extensão territorial de 109.185,00 km², 80% do qual constituída por Terras Indígenas (Alto Rio Negro, Balaio, Médio Rio Negro I e II, Rio Tea e Yanomami), encontramos uma população de aproximadamente 37 mil pessoas , quase 90% dos quais indígenas. Em Santa Isabel do Rio Negro quase 60% da população total do município é indígena, e mesmo não tendo estimativas para o município de Barcelos, certamente é possível afirmar que há muitas famílias indígenas em Barcelos oriundas da região, bem como migrantes do alto rio Negro, sobretudo dos rios Uaupés e Içana.

Essa população indígena do rio Negro representa mais de trinta grupos etno-linguísticos, falantes de idiomas de cinco famílias linguísticas distintas. A família Aruák é representado pelos povos Baré, Baniwa, Kuripako, Tariana e Werekena; entre os que pertencem à família Tukano Oriental são os povos Arapaso, Bará, Barasana, Desana, Karapanã, Kotiria/Wanano, Kubeo, Makuna, Miriti-tapuya, Siriano, Taiwano, Tukano, Utapinopona/Tuyuka, Wa’ikhana/Piratapuyo e Yuruti. Hhá quatro línguas falados por povos da etnia Yanomami: Yanomami, Yanomam, Ninam e Sanumá; e a família lingüística Maku (ou Nadahup) é representada pelos povos Yuhup, Hup, Dâw e Nadöb. Há, ainda, um grande número de indivíduos, de grupos étnicos diversos, que atualmente falam Nheengatú (ou Língua Geral Amazônica), língua da família Tupi-Guarani que foi introduzida na região no século dezoito (Cabalzar & Ricardo, 1998; Lasmar, 2005; Ricardo& Ricardo, 2006). Essa imensa diversidade torna São Gabriel da Cachoeira o município mais multilíngue do Brasil, uma verdadeira ‘Terra das Línguas’, como já fora batizado (Almeida, 2007; Oliveira, 2007).

Não dispomos, no entanto, de estatísticas exatas de quantos falantes há de cada uma dessas línguas. Isso se deve, em parte, à própria dinâmica sociolinguística da região, que leva a maioria das pessoas a adquirirem conhecimento, com graus diferentes de fluência, de mais de uma língua indígena (e frequentemente de várias delas, além da língua nacional). É comum as próprias pessoas fazerem distinção entre as línguas que ‘escuta e fala’, as línguas que ‘escuta e fala um pouco’ e as línguas que só ‘escuta, mas não fala’. Esse tipo de classificação gradativa espelha bem a situação multilíngüe dos indivíduos e mostra a percepção de graus diferentes de conhecimento lingüístico, mas ao mesmo tempo dificulta a representação desses conhecimentos em termos de números. Falta-nos ainda realizar um levantamento sistemático de uso das línguas em toda a região, que leva em conta fatores socioculturais e geográficos, que seja sensível às diferenças dos contextos urbanos e das comunidades , e que possa apontar processos de mudança, tantos os históricos e quantos aqueles que estão atualmente em curso.

O que podemos afirmar, em termos gerais, é que certas línguas da região possuem maior número de falantes do que outras. As línguas Tukano, Baniwa, Nheengatú e Kubeo, por exemplo, têm milhares de falantes e se encontram em situação de expansão. São percebidas como sendo línguas ‘fortes’ da região. Para a maior parte das línguas, no entanto, o número de falantes é certamente bem menor: há menos de mil falantes para cada idioma e muitas estão em claro processo de declínio. Há alguns casos de línguas seriamente ameaçadas, como Tariana e Werekena, com apenas poucas dezenas de falantes restantes, e ainda outras, como as línguas Baré, Miriti-tapuya e Arapaso, para as quais não se encontra mais nenhum falante; essas línguas já são consideradas como extintas (Moore & Gabas Jr., 2006; Stenzel, 2006). Sabemos também que, mesmo entre línguas ainda em uso, e apesar das experiências pilotos com escolas indígenas diferenciadas, nem todas as línguas estão sendo aprendidas pelas crianças, o que pode apontar uma situação de perda dessas línguas em poucas gerações.

No mais, reconhecemos uma tendência geral de perda lingüística — mesmo entre falantes das línguas mais fortes — nos contextos urbanos, principalmente entre jovens e crianças . Em cidades como São Gabriel, as práticas tradicionais que dão origem aos padrões de multilinguismo características da região — casamento interétnico, mudança da esposa para a casa/comunidade do marido, uso do idioma do pai como língua pública que marca a identidade — não dão conta de manter viva e dinâmica a transmissão das línguas. De fato, a cidade representa o ambiente de maior pressão de deslocamento das línguas indígenas pelo português, língua oficial do país e dominante no âmbito das instituições educacionais, de governo, meios de comunicação, comércio e serviços. Como consequência dessa pressão, nota-se que os jovens moradores de São Gabriel e de Santa Isabel geralmente falam e entendem um número menor de línguas do que os adultos com quem convivem, evidência de uma diminuição dos repertórios linguísticos individuais. No mais, os jovens tendem a adotar e valorizar cada vez mais o português como língua de comunicação em todos os contextos fora do espaço íntimo familiar. Sendo que atualmente metade da população do município de São Gabriel da Cachoeira mora no espaço urbano , essas tendências observadas se tornam bastante preocupantes.

No entanto, apesar das observações (algumas um pouco pessimistas) sobre as mudanças de uso das línguas e o reconhecimento (realista) de que ainda precisamos conhecer melhor a situação sociolingüística da região, há uma grande certeza que podemos afirmar. Isso é que valorizamos a diversidade linguística e cultural da região, considerando-as patrimônio não só de todos dos povos Rionegrinos, mas também do país e da humanidade. No mais, apoiando-nos nessa certeza do enorme valor da diversidade linguística, estamos engajados na luta para preservar essa riqueza, discutindo e formulando ações apropriadas e auto-determinadas de salvaguarda a nível municipal, estadual e federal. Podemos destacar algumas ações já iniciadas nesse sentido, como a legislação pioneira de co-oficialização das línguas Tukano, Nheengatú e Baniwa no município de São Gabriel da Cachoeira. Devemos apontar também as iniciativas (desde o final da década de 90) de formação e consolidação das escolas indígenas diferenciadas em comunidades dos povos Baniwa, Tuyuka, Kotiria, Tariana, Tukano, Hup e Wa’ikhana, e, mais recentemente, entre grupos residentes da cidade — essas escolas têm como um dos seus objetivos principais a valorização e fortalecimento do uso das línguas (Cabalzar, 2006). Por último, devemos lembrar que o projeto de Mapeamento da Diversidade e Vitalidade Línguistica da Cidade de São Gabriel da Cachoeira está sendo realizada no ano de 2011. O projeto representa a etapa piloto do primeiro levantamento sociolinguístico da região, e está sendo realizada em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, FOIRN, ISA, alunos e professores das escolas de Ensino Médio da cidade. Ver mais informação no site do projeto: http://www.sgclinguas.letras.ufrj.br/ e participa do grupo SGC Línguas no Facebook.

Convidamos a todos a participar dessas e outras ações de fortalecimento do uso das línguas indígenas da região, e de conhecer um pouco mais sobre as línguas da região do alto rio Negro através dos recursos e informações disponibilizados nesse site.


								

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